quarta-feira, 5 de junho de 2013

Trovadorismo: resumo, características e cantigas

Postagem associada ao Blog do Gramaticando

Hoje em dia, está na moda a literatura fantástica, cheia de vampiros, de anjos e de zumbis. É o que o pessoal gosta de ler. Estamos vivendo a época do "Vampirismo", do "Harry Potterismo", do "Senhor dos Aneisismo" e por aí vai. 

Porém, na Idade Média, os tempos eram outros. A galera vivia o período conhecido como "Trovadorismo". Claro que as coisas eram um pouco diferentes: não existia Facebook, nem Twitter, nem televisão, graças a Deus não havia Zorra Total e, além disso, as pessoas viviam no Feudalismo (imagine o tédio). Ou seja: ao invés de viverem num país governado por um presidente e dividido em estados e em cidades, o povo vivia em feudos (espécie de fazendas autônomas) chefiadas por um camarada chamado "suserano" (que era o dono do pedaço). O suserano era "o cara" e quem trabalhava para ele eram os "vassalos". Os vassalos cultivavam nas terras do suserano, entregando parte da produção ao chefe e sendo completamente fiéis aos seu senhor. Como troca, o suserano oferecia proteção militar (já que naquela época o pau comia mesmo). Era esse o contexto histórico da época. 

Porém, na Idade Média, as coisas não eram tão liberais como são hoje. Hoje em dia, crianças rebolam o funk, a moda é ser "vida loka" e tudo anda muito mais liberal. Na Idade Média, a situação era outra: o cara simplesmente se sentia inferior à mulher, que era tida como uma espécie de deusa toda-poderosa e inatingível. A mulher era a suserana e o cara, um mero mortal, era o seu vassalo, o seu servo. 

Logo, ser romântico era o mesmo que ser "submisso", adorando a mulher inatingível e perfeita. Essa era a temática das "cantigas de amor": eram poesias cantadas e escritas por um cara que contemplava a mulher longe e distante, amargando um amor não correspondido. O cara era o vassalo e a mulher era a suserana. Era a chamada "vassalagem amorosa": o sentimento de submissão, a mulher inatingível, o amor não correspondido e, por isso, o rapaz vivia em constante estado de sofrimento por desejar a mulher sem conseguir nenhum resultado. 

Exemplo:

"A dona que eu am'e tenho por Senhor
amostrade-me-a Deus, se vos en prazer for,
se non dade-me-a morte.
A que tenh'eu por lume d'estes olhos meus
e porque choran sempr(e) amostrade-me-a Deus,
se non dade-me-a morte.
Essa que Vós fezestes melhor parecer
de quantas sei, a Deus, fazede-me-a veer,
se non dade-me-a morte.
A Deus, que me-a fizestes mais amar,
mostrade-me-a algo possa con ela falar,
se non dade-me-a morte."


Por favor, não entenda "submissão" do cara pela mulher do tipo "chicote" e "coleiras". A mulher não vai prender a coleira no rapaz e dizer: "vem, meu cachorrinho. Eu mando em você, MUA-HÁ-HÁ". Ser "submisso" significa "ser inferior". A mulher encontra-se longe e inatingível, sendo admirada de longe pelo homem (que nunca chega nela... só sabe escrever sobre ela). 

Mesmo que o trovador fosse esperto, criativo e romântico, ele JAMAIS conseguiria desenrolar com a mulher. Ela é uma deusa inatingível, não importa o tipo de "cantada" que ela receba. 

Hoje em dia, o romantismo anda meio em queda:



Na Idade Média, os homens viajavam bastante por conta das guerras. Eles viajavam de modo inesperado, deixando suas namoradas em casa, que esperavam ansiosamente por eles. E, claro, não existia Facebook, nem celular, nem telefone, nem e-mail. Imagine o cara chegar para a sua namorada e dizer: "querida, estou indo pro outro lado do mundo para guerrear. Não sei quando volto... Se eu voltar, claro".

Nesse contexto, surgiram as "cantigas de amigo", onde o eu-lírico (a pessoa que escreve a cantiga) é uma mulher ansiosa e preocupada com o seu "amigo" (namorado) que partiu, não sabendo quando ele vai voltar (ou se realmente vai voltar). O ambiente retratado é bem bucólico (no meio do mato), levando em conta a vida camponesa nas aldeias. Essas cantigas expressam a dor da mulher em virtude da partida seu amado (chamado de "amigo").

Obs: o eu-lírico é feminino, mas quem escreve a cantiga é um homem. As mulheres não escreviam porque eram consideradas analfabetas. Logo, o trovador era o homem que escrevia as cantigas de amigo se passando pela mulher, que agonizava pelo seu "amigo" (amado, namorado) que havia ido embora. 

As cantigas de amigo retratam a mulher preocupada, perguntando para suas amigas, para o céu, para o mar,  para os pássaros e para tudo ao seu redor onde estaria o seu bofe amado. Vejamos um exemplo:

Ai flores, ai flores do verde pinho
se sabedes novas do meu amigo,
ai deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amado,
aquele que mentiu do que me há jurado
ai deus, e u é?


Seria algo do tipo: "Ai meu Deus! Alguém viu o meu amor? Vocês viram ele, flores? Vocês viram ele, árvores? Você viu ele, mar?".

As "cantigas de amor" e as "cantigas de amigo" são classificadas como "cantigas líricas".

Por outro lado, existem as "cantigas satíricas", que são: as de "escárnio" e as de "maldizer". Traduzindo para os dias de hoje, as "cantigas satíricas" são as "cantigas troll", ou seja: o cara "trolla alguém" (sacaneia), chamando a mulher de gorda, feia, velha, etc... A diferença é que, na cantiga de escárnio isso acontece de modo indireto, mais sutil, sem dizer o nome da pessoa, usando duplo sentido, enquanto que na "cantiga de maldizer" o cara simplesmente debocha de alguém, expondo o seu nome, podendo usar palavrões e sendo mais agressivo.

Continuar a leitura


Tags: resumo trovadorismo, o que trovadorismo, o trovadorismo, cantigas de trovadorismo, tipos de cantigas, cantigas satíricas, cantigas líricas